sábado, 3 de dezembro de 2016

Pragas da Batata


Pragas e métodos de controle

Os insetos-praga constituem um dos fatores mais limitantes para a produção de batata no Brasil. Danificam a parte aérea, reduzindo a área foliar fotossintetizante, ou os tubérculos, tornando-os imprestáveis para o consumo e para uso como semente. A seguir, serão apresentados os principais insetos-praga responsáveis por causar perdas na cultura da batata descrevendo sua bioecologia e danos, bem como as técnicas disponíveis para o seu manejo.

Vaquinha ou larva-alfinete (Diabrotica speciosa, Coleoptera: Chrysomelidae)
Descrição e biologia
Conhecida popularmente como larva alfinete, na fase larval, e como vaquinha ou patriota, na fase adulta, é uma das principais pragas da cultura da batata. Os adultos são besouros que medem aproximadamente 5 mm a 6 mm de comprimento e possuem seis manchas amarelas nos élitros verdes (Figura 1).
Foto: Heraldo Negri de Oliveira
Adulto de Diabrotica speciosa
Figura 1. Adulto de Diabrotica speciosa.

As fêmeas colocam em média 400 ovos em rachaduras no solo na proximidade das plantas. Os ovos são globulosos e de coloração amarelada, medindo cerca de 0,5 mm de diâmetro. O período de incubação varia de sete a 14 dias, dependendo da temperatura. Ao eclodir, as larvas alimentam-se de estolões e tubérculos, sendo que nestes últimos, constroem galerias, depreciando estes para o consumo e indústria. A duração da fase larval também oscila com a temperatura, podendo ser de 12 a 30 dias. A fase pupal ocorre no solo, em câmaras pupais, apresentando uma duração de aproximadamente 12 dias, após a qual emergem os adultos.
Danos
A vaquinha danifica tanto a parte aérea quanto os tubérculos. Os adultos chegam às lavouras de batata a partir da emigração de lavouras de milho, feijão e soja, entre outras e se alimentam dos folíolos, porém não causam maiores danos à produção, uma vez que as infestações ocorrem após as plantas terem desenvolvido boa massa foliar. Os danos mais significativos são causados pelas larvas que se alimentam dos tubérculos, reduzindo o seu valor comercial (Figura 2).
Foto: Carlos A. Lopes
Danos causados nos tubérculos pelas larvas
Figura 2. Danos causados nos tubérculos pelas larvas de Diabrotica speciosa.

Controle
O controle é realizado, principalmente, com uso de inseticidas registrados, conforme indicação no Agrofit (2015), do MAPA.

Pulgões (Macrosiphum euphorbiae e Myzus persicae, Hemiptera: Aphididae)
Descrição e biologia
Os pulgões são pequenos insetos que sugam a seiva das plantas. As duas principais espécies que atacam a batata são Macrosiphum euphorbiae Myzus persicae (Figura 3).
Foto: Dori Edson Nava
Pulgão no estádio de ninfa em folha de batata
Figura 3. Pulgão no estádio de ninfa sobre a folha de batata.

Na espécie M. euphorbiae, tanto os indivíduos ápteros quanto os alados são de coloração verde, sendo a cabeça e o tórax amarelados e as antenas escuras. Na forma áptera, os pulgões são maiores que os alados que medem aproximadamente 3 mm a 4 mm de comprimento. A espécie M. persicae mede cerca de 2 mm de comprimento, sendo que as formas ápteras apresentam coloração verde-clara, e os alados, verde. A cabeça, as antenas e o tórax são pretos. De uma maneira geral, o desenvolvimento dos pulgões ocorre em 10 dias e as ninfas passam por quatro ecdises. A reprodução se dá por partenogênese, e cada fêmea origina, em média, 80 indivíduos.
Danos
Os danos diretos causados por pulgões consistem na sucção de seiva, ocasião em que podem injetar saliva tóxica. Entretanto, as perdas ocorrem somente quando a população da praga é elevada. O principal dano provocado por pulgões é indireto, pelo fato de serem vetores de vários vírus, como o PVY e o PLRV, causadores do mosaico e enrolamento das folhas, respectivamente.
Controle
O controle inicia-se pelo monitoramento da população dos pulgões, usando bandejas amarelas com água. Também, pode-se realizar a contagem de pulgões em 100 folhas por hectare, duas vezes por semana. Quando forem encontrados mais de 20 pulgões alados nas bandejas ou mais de 30 pulgões ápteros por folha em cada observação, deve-se realizar o controle com inseticidas registrados no MAPA (Agrofit, 2015). Recomenda-se também espalhar sobre o solo palha de arroz, que reflete os raios ultravioletas, fazendo com que os pulgões alados não pousem nas plantas. Além dessas recomendações, devem ser preservados os inimigos naturais, como as joaninhas e o bicho-lixeiro, usando inseticidas seletivos.

Mosca-minadora (Liriomyza spp., Diptera: Agromyzidae)
Descrição e biologia
Trata-se de um díptero de coloração preta, a fêmea mede cerca de 1,5 mm e o macho um pouco menos. A postura é realizada no interior do tecido vegetal, numa quantidade que pode variar de 500 a 700 ovos. O período de incubação varia de dois a oito dias, dependendo da temperatura. As larvas são cilíndricas, de cor branca e ápodas. A fase de larva varia de sete a 15 dias. As pupas são formadas nas folhas, no caule e, principalmente, no solo, permanecendo nesse estágio de nove a 15 dias. Os adultos vivem entre 10 e 20 dias. O ciclo completo do inseto varia de 21 a 28 dias.
Danos
A fêmea adulta alimenta-se do conteúdo celular que extravasa de perfurações por ela realizadas, sendo também chamadas de minas ou puncturas. As minas aparecem primeiro nas folhas mais velhas e, dependendo do nível de infestação, podem chegar às folhas superiores (Figura 4). O dano da mosca-minadora reduz a área fotossintética da planta e a predispõe a doenças fúngicas. Quando o ataque é intenso pode inviabilizar prejudicar o tecido foliar, levando a planta à morte.
Foto: Heraldo Negri de Oliveira
Presença de minas em folhas de batata, causadas por larvas da mosca minadora
Figura 4. Presença de minas em folhas de batata, causadas por larvas da mosca-minadora.

Controle
O controle químico de adultos e larvas pode ser realizado com inseticidas de diferentes grupos químicos registrados (Agrofit, 2015). Não há nível limiar de dano, devendo-se realizar as aplicações assim que for constatada a presença da praga nas lavouras. Após a colheita, o agricultor deve incorporar os restos culturais, pois estes abrigam pupas e larvas da mosca-minadora, servindo de fonte para a manutenção do inseto. Devido à pequena duração do ciclo biológico e à intensidade de aplicações de inseticidas, deve-se optar sempre por rotacionar aqueles com modos de ação diferentes, evitando assim a seleção de insetos resistentes. Por outro lado, deve-se optar também por inseticidas seletivos aos inimigos naturais.

Traça (Phthorimaea operculella, Lepidoptera: Gelechiidae)
Descrição e biologia
Os adultos da traça possuem hábito noturno, permanecendo durante o dia refugiados nas folhas da batata ou na vegetação vizinha. Apresentam coloração geral acinzentada, medindo de 10 mm a 12 mm de envergadura. As asas anteriores apresentam pequenas manchas irregulares escuras, ornadas com pelos nas bordas, sendo as asas posteriores de coloração acinzentada. Os adultos vivem de 10 a 15 dias, podendo ser encontrados durante todo o ano, tanto no campo como nos armazéns. Cada fêmea coloca em média 300 ovos individualizados, próximos das nervuras da superfície inferior das folhas, nos pecíolos, gemas e brotações novas dos tubérculos. Os ovos são brancos, lisos e globosos. Após cinco dias, as larvas eclodem e se alimentam do mesófilo foliar, formando as minas, de aparência mais grosseira do que as provocadas pela mosca-minadora. As larvas no último ínstar chegam a medir 12 mm de comprimento e possuem coloração rosada no dorso. No final da fase larval, saem do substrato e procuram um local para empupar, construindo uma proteção com fios de seda. A duração do período ovo-adulto é de cerca de 30 dias a 25 °C.
Danos
As larvas causam danos (minas) primeiramente nas folhas e ramos e, com a morte da planta, passam a atacar também os tubérculos, construindo galerias onde se podem ver suas fezes (Figura 5). As perdas podem se estender para tubérculos armazenados.
Foto: Heraldo Negri de Oliveira
Larva de Phthorimaea operculella alimentando-se do tubérculo de batata
Figura 5. Larva de Phthorimaea operculella alimentando-se do tubérculo de batata.

Controle
Dentro do conceito de manejo integrado, podem ser utilizadas várias medidas preventivas, tais como: plantio de sementes sadias – para evitar a entrada do inseto na lavoura; preparo adequado do solo - a fim de evitar formações de torrões, que servirão de abrigo para os adultos da traça; plantio na profundidade adequada à época; realização da amontoa - pois esta é uma importante barreira física que dificulta o acesso de adultos e larvas da traça aos tubérculos; uso de irrigação por aspersão - a fim de diminuir as rachaduras no solo, dificultando assim o acesso da traça aos tubérculos; eliminação de solanáceas - consideradas plantas hospedeiras; colheita na época certa e separação e eliminação de tubérculos infectados durante a lavagem e classificação; armazenamento em locais limpos desinfetados e protegidos - pois a traça encontra condições favoráveis em armazéns sujos e mal manejados; limpeza e desinfestação com pulverizações e expurgos; e armazenamento dos tubérculos em câmaras frias a aproximadamente 10 °C.
A preservação e manutenção dos inimigos naturais contribuem, também, para manter a população da praga em baixa densidade populacional, o que reduz a necessidade do controle químico, que, quando necessário, pode ser realizado no campo ou nos armazéns com inseticidas recomendados (Agrofit, 2015).

Cigarrinha (Empoasca spp., Hemiptera: Cicadellidae)
Descrição e biologia
Os adultos medem aproximadamente 3 mm de comprimento e são de coloração verde-pálida e verde-prateada. A postura é realizada, preferencialmente, ao longo das nervuras da folha. Cada fêmea coloca em torno de 60 ovos. As ninfas são de coloração verde mais clara e têm o hábito de se locomover lateralmente. A duração do período de ovo-adulto é de aproximadamente 21 dias.
Danos
O ataque às lavouras de batata é esporádico e desuniforme, favorecido pelo clima úmido. Os insetos vivem na parte abaxial (de baixo) dos folíolos, alimentando-se da seiva da planta. Também injetam saliva tóxica, causando a paralisação do crescimento, o encarquilhamento e a necrose dos folíolos e das folhas. Sob ataque severo, as plantas atacadas morrem prematuramente.
As cigarrinhas podem transmitir alguns vírus, embora sua ocorrência seja rara.
Controle
Deve ser realizado a partir da constatação das cigarrinhas nas lavouras. Para tal, recomenda-se observar a sua presença na parte inferior dos folíolos ou utilizar redes entomológicas, bem como armadilhas amarelas. Os inseticidas recomendados para o controle químico, quando necessário, estão listados no Agrofit (2015).

Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon, Lepidoptera: Noctuidae)
Descrição e biologia
Em batata, a espécie de lagarta-rosca mais frequentemente encontrada causando danos é Agrotis ipsilon. Os adultos são mariposas de aproximadamente 40 mm de envergadura, cujas asas anteriores são marrons com algumas manchas pretas e as posteriores, semitransparentes. As fêmeas podem colocar até 1000 ovos, realizando posturas em rachaduras no solo ou diretamente no colo das hastes das plantas de batata. O período de incubação varia de cinco a sete dias. As lagartas apresentam coloração pardo-acinzentada escura, atingindo até 45 mm de comprimento. Possuem atividade noturna e durante o dia permanecem enroladas (Figura 6) e refugiadas sobre resto de vegetais ou sob os primeiros centímetros do solo. A duração do período ovo-adulto é de aproximadamente 35 dias. 
Foto: Heraldo Negri de Oliveira
Larva de Agrotis ipsilon enrolada sobre o solo
Figura 6. Larva de Agrotis ipsilon enrolada sobre o solo.

Ocorre especialmente em solos arenosos, com boa drenagem e aeração. Culturas que antecedem à batata têm influência na incidência dessa lagarta, pois algumas são hospedeiras da mesma.
Danos
Essas lagartas-roscas cortam os caules das plantas jovens e danificam os tubérculos mais superficiais, realizando perfurações. Cada lagarta pode destruir até quatro plantas com 10 cm de altura.
Controle
Pode-se realizar o controle químico com a aplicação de inseticidas registrados (Agrofit, 2015).

Burrinho ou vaquinha-da-batata (Epicauta atomaria e Epicauta suturalis, Coleoptera: Meloidae)
Descrição e biologia
Trata-se de um inseto polífago que se alimenta de várias solanáceas e plantas hortícolas. O adulto é um besouro que mede de 10 mm a 15 mm de comprimento. Epicauta atomaria possui coloração cinza e pontos pretos distribuídos sobre os élitros e é mais comum nas regiões Sul e Sudeste do Brasil (Figura 7), enquanto E. suturalis, apresenta o corpo de coloração escura e é mais frequente no Centro-Oeste do Brasil (Figura 8). A postura é realizada no solo, em grupos de 50 a 80 ovos e as larvas não causam danos aos tubérculos.
Foto: Heraldo Negri de Oliveira
Adulto de vaquinha ou burrinho (Epicauta atomaria) alimentando-se de folhas de batata
Figura 7. Adulto de vaquinha ou burrinho alimentando-se de folhas de batata.
Foto: Carlos A. Lopes
Adultos de Epicauta suturalis se alimentando em folhas de batata
Figura 8. Adultos de Epicauta suturalis se alimentando em folhas de batata.

Danos
Alimentam-se de folhas deixando apenas as nervuras e quando a população é grande podem causar desfolha total.
Controle
O controle mais utilizado é o químico (Agrofit, 2015).

Mosca-branca (Bemisia tabaci (Genn.) biótipo B, Hemiptera: Aleyrodidae)
Descrição e biologia
Altas infestações de mosca-branca são relativamente recentes em lavouras de batata no Brasil, com os primeiros surtos constatados a partir de 2001. Os adultos de B. tabaci biótipo B possuem dorso de cor amarelo-pálido e asas brancas, medindo de 1 mm a 2 mm de comprimento e 0,36 mm a 0,51 mm de largura (Figura 9), apresentando a fêmea maior tamanho do que o macho. As fêmeas podem colocar de 100 a 300 ovos durante toda a sua vida, sendo que a taxa de oviposição depende da temperatura e da planta hospedeira. Quanto à longevidade, os machos vivem de 9 a 17 dias (média de 13 dias) e as fêmeas 38 a 74 dias (média de 62 dias). O ciclo em diferentes genótipos de batata têm uma duração de 21 a 23 dias.
Foto: Airton Arikita
Mosca branca em folhas de batata
Figura 9. Mosca-branca em folhas de batata.

Danos
Os danos ocasionados à cultura de batata incluem sucção de seiva, desenvolvimento de fumagina e transmissão de vírus como o Tomato yellow vein streak vírus (ToYVSV) causador do mosaico-deformante em plantas de batata.
Controle
O controle pode ser realizado por meio de medidas culturais, tais como destruição de restos de cultura e da alternância de lavouras, com períodos livres de plantações. Já o combate biológico é feito por meio de inimigos naturais. Quando exigido, devem ser usados inseticidas constantes do Agrofit (2015).

Demais pragas
Além das pragas já mencionadas, outros insetos podem causar dano eventualmente em regiões localizadas, sendo, portanto considerados de importância secundária. Dentre esses, destacam-se as lagartas Spodoptera eridania e Spodoptera fugiperda, os besouros Phyrdenus muriceusConoderus scalarisEpitrix spp., Dyscinetus planatus, a cochonilha-branca (Pseudococcus maritimus) e a formiga “lava-pé” (Solenopsis saevissima). Além desses insetos, o ácaro-branco (Polyphagotarsonemus latus) também pode causar danos.
FONTE? EMBRAPA HORTALIÇAS



Doenças na Batata


Doenças e métodos de controle

As doenças são responsáveis por elevadas perdas na produção de batata, e seu controle normalmente requer a aplicação de agrotóxicos. Estes, por sua vez, devem ser usados com muita cautela, sob pena de proporcionarem resíduos nos tubérculos que comprometem a segurança alimentar além de concorrerem para a deterioração do meio ambiente. Mais de uma centena de doenças já foi registrada para a cultura da batata; muitas delas tão devastadoras que, quando não adequadamente controladas, causam perda total da produção ou afetam a qualidade do produto, cuja aparência é muito valorada pelo consumidor brasileiro.
Doenças na batata podem ser causadas por fungos, oomicetos, bactérias, vírus e nematoides (doenças transmissíveis), além daquelas não transmissíveis, também chamadas de distúrbios fisiológicos.
Doenças causadas por fungos e oomicetos
Requeima, mela, míldio, mufa, preteadeira, fitóftora ou crestamento-da-fitóftora (Phytophthora infestans)
A requeima é a principal doença da batata no mundo. É favorecida por baixa temperatura (12 °C - 18 °C) e alta umidade relativa do ar (>90%). Sob estas condições, espalha-se rapidamente na lavoura, podendo causar perda total em poucos dias pela destruição da folhagem. A doença se manifesta primeiro nas folhas mais novas, onde causa manchas grandes (Figura 1) e escurecimento do caule (Figura 2). Quando o patógeno atinge o tubérculo, causa lesões escuras e firmes, de bordas pouco definidas, de cor marrom na polpa exposta por corte superficial (Figura 3).
Foto: Carlos A. Lopes
Manchas necróticas grandes de requeima em batata
Figura 1Manchas necróticas grandes de requeima em batata.
Foto: Carlos A. Lopes
Escurecimento na parte superior de caule de batata causado pela requeima
Figura 2Escurecimento na parte superior de caule de batata causado pela requeima.
Foto: Carlos A. Lopes
Manchas marrons em tubérculos de batata causado pela requeima
Figura 3Manchas marrons em tubérculos de batata causado pela requeima.
A requeima é causada por Phytophthora infestans, um oomiceto (antigamente classificado como fungo) que produz esporângios, zoósporos e oósporos, que são estruturas responsáveis pela dispersão e/ou sobrevivência do patógeno. A recombinação dentro da espécie pode gerar variantes do patógeno que suplantam ou “quebram” a resistência vertical de cultivares ou que são resistentes a determinados fungicidas. A resistência horizontal à requeima tem sido preferida no desenvolvimento de novas cultivares, pois é efetiva contra todas as variantes do patógeno e, por conseguinte, mais estável e durável.

Pinta -preta ou mancha-de-alternaria, alternária e crestamento-foliar (Alternaria solani e A. grandis)
É favorecida por temperaturas altas, acima de 24 ºC, e alta umidade relativa do ar (>90%), portanto mais presente em lavouras cultivadas durante o verão. Normalmente, se estabelece na lavoura após o período de maior vigor vegetativo e se espalha por meio de esporos carregados pelo vento.
Contrastando com a requeima, ataca primeiramente as folhas mais velhas, onde causa lesões concêntricas, mais secas e menores que as da requeima (Figura 4), e pode provocar desfolha total das plantas, reduzindo o ciclo da cultura, resultando na produção de tubérculos pequenos e, consequentemente, em baixa produtividade. Estudos recentes têm indicado que A. grandis é a principal espécie associada à pinta-preta em batata no Brasil.
Foto: Carlos A. Lopes
Manchas necróticas pequenas da pinta-preta em folhas de batata
Figura 4Manchas necróticas pequenas da pinta-preta em folhas de batata.
As cultivares mais plantadas no Brasil são suscetíveis à pinta-preta. Assim, seu controle requer aplicações de fungicidas que chegam a representar mais de 10% do custo de produção. Escolha do local e época de plantio, rotação de culturas de preferência com gramíneas e nutrição adequada das plantas, entre outros, têm um importante papel no controle integrado da doença. Porém, é difícil obter sucesso exclusivamente com as medidas acima, especialmente quando a cultura se insere em sistemas intensivos de produção. O emprego de cultivares resistentes está entre as medidas mais eficientes e seguras para o controle da pinta-preta. Trabalhos de melhoramento que vêm sendo conduzidos, inclusive pela Embrapa, têm mostrado ser possível obter genótipos precoces e ao mesmo tempo resistentes à pinta-preta.

Rizoctoniose, crosta-preta ou alfalto (Rhizoctonia solani)
É uma doença que aparece principalmente em solos frios, atacando inicialmente os brotos, antes e após a emergência, afetando o estande e a uniformidade da lavoura. Também provoca cancros avermelhados na base das ramas (Figura 5) e enrolamento das folhas, que se confunde com o ataque do vírus do enrolamento das folhas de batata (PLRV). Plantas afetadas às vezes apresentam tubérculos aéreos, que se formam pelo acúmulo localizado de amido pelo impedimento da sua translocação causado pelas lesões no caule. Nos tubérculos, a doença é reconhecida facilmente pela presença de escleródios superficiais pretos (asfalto) (Figura 6). É comum a formação de tubérculos deformados, produzidos em “cachos”, resultantes da inibição do alongamento dos estolões (Figura 7). Neste caso, percebe-se uma aspereza superficial que pode ser confundida com a sarna-comum. A doença espalha-se principalmente por meio da batata-semente e máquinas contaminadas.
Foto: Carlos A. Lopes
Cancros de cor marrom cuasados pela rizoctoniose em caule subterrâneo de batata
Figura 5Cancros de cor marrom cuasados pela rizoctoniose em caule subterrâneo da batata.
Foto: Carlos A. Lopes
Escleródios pretos de Rhizoctonia solani (mancha-asfalto) em tubérculos de batata
Figura 6Escleródios pretos de Rhizoctonia solani (mancha-asfalto) em tubérculos de batata.
Foto: Carlos A. Lopes
Tubérculos e batata deformados pela ação da rizoctoniose no alongamento dos estolões
Figura 7Tubérculos e batata deformados pela ação da rizoctoniose no alongamento dos estolões.

Sarna-pulverulenta, sarna ou espongóspora (Spongospora subterranea)
É uma doença que afeta raízes e tubérculos da batata. Nas raízes, forma pequenas galhas similares às de nematoides (Figura 8), mas os danos são principalmente nos tubérculos, onde são formadas pústulas superficiais que se abrem (Figura 9) e liberam estruturas típicas do patógeno, chamadas bolas de esporos (spore balls). Essas lesões comprometem a aparência do produto e podem ser confundidas com as da sarna-comum. Geralmente, só é observada após a colheita, principalmente quando a batata é lavada. O patógeno está associado ao solo, onde sobrevive por muitos anos, e a batata-semente infectada, através da qual ele é disperso a longas distâncias. Embora cause mais problemas em climas frios, pode ser encontrada sob todas as condições onde se cultiva a batata, desde que os solos estejam bem úmidos.
Foto: Carlos A. Lopes
“Galhas” de Spongospora subterranea em raízes de batata
Figura 8“Galhas” de Spongospora subterranea em raízes de batata.
Foto: Carlos A. Lopes
Sarna-pulverulenta em tubérculos de batata
Figura 9Sarna-pulverulenta em tubérculos de batata.

Podridão-seca e olho-preto (Fusarium spp.)
Afeta somente os tubérculos, provocando o seu apodrecimento antes e, principalmente, após a colheita, pela infecção que se dá por meio de ferimentos mecânicos ou causados por insetos. É mais importante para a batata-semente, que é armazenada por períodos, que podem ser de vários meses, em câmaras frias ou em temperatura ambiente, dependendo da necessidade de se obter tubérculos brotados para o plantio. Temperaturas mais altas são mais favoráveis para o desenvolvimento da doença. A doença se caracteriza por ser seca e deprimida, evoluindo para seca total do tubérculo, que fica com aspecto mumificado. Quando o tubérculo doente é cortado, percebe-se a formação de cavidades internas, geralmente cobertas de micélio branco do fungo (Figura 10). O olho-preto (Figura 11), além de podridão-seca, causa escurecimento vascular.
Foto: Carlos A. Lopes
Podridão-seca em tubérculos de batata, com a presença de micélio de Fusarium sp
Figura 10Podridão-seca em tubérculos de batata com a presença de micélio de Fusarium sp.
Foto: Carlos A. Lopes
Escurecimento vascular em tubérculos de batata atacados por Fusarium solani
Figura 11Escurecimento vascular em tubérculos de batata atacados por Fusarium solani.

Olho-pardo (Cylindrocladium clavatum)
Afeta somente os tubérculos, onde causa lesões superficiais marrom escuras ao redor das lenticelas localizadas mais próximas à região do estolão (Figura 12). É muito comum em solos de cerrado e aparece com mais frequência em cultivos sujeitos a temperaturas mais altas, principalmente se a batata é cultivada após ervilha ou soja, que também são hospedeiras do fungo. Pode ser confundida com outras doenças associadas às lenticelas (lenticeloses) e com a podridão-seca, neste caso, quando as lesões são mais profundas devido a condições de temperatura e umidade altas, que são mais favoráveis à doença.
Foto: Carlos A. Lopes
Lesões causadas por Cylindrocladium clavatum em tubérculos de batata
Figura 12Lesões causadas por Cylindrocladium clavatum em tubérculos de batata.

Sarna-prateada (Helminthosporium solani)
Afeta a periderme dos tubérculos (pele), sem se aprofundar na polpa. Tubérculos recém-colhidos, em especial se permaneceram no solo além do necessário para fixação da pele e sob temperatura e umidade altas, apresentam manchas superficiais irregulares, de aspecto metálico-prateado, percebidas principalmente após a lavação (Figura 13), característica que confere o nome à doença. No caso de batata-semente, que é armazenada por períodos mais longos, a superfície coberta pela lesão apresenta aspecto enrugado, ocasionado pela perda de água no tecido afetado.
Foto: Carlos A. Lopes
Sarna prateada em tubérculos de batata
Figura 13Sarna prateada em tubérculos de batata.
Doenças causadas por bactérias
Murcha-bacteriana, murchadeira, água quente ou dormideira (Ralstonia solanacearum)
É favorecida por temperatura e umidade altas. Está presente nos solos de quase todo o país, podendo atacar muitas espécies de plantas, embora a raça 3 biovar 2 (R3Bv2) Filotipo I, predominante no Sul e Sudeste do Brasil, seja mais comum em batata. Provoca murcha da planta (Figura 14) e exsudação de pus bacteriano nos tubérculos (Figura 15). É responsável por perdas significativas em épocas mais quentes do ano em solos muito úmidos, se não for feita adequada rotação de culturas, de preferência com gramíneas, ou se batata-semente contaminada for utilizada. O teste-do-copo é uma técnica útil para se diagnosticar esta doença (Figura 16).
Foto: Carlos A. Lopes
Planta de batata com sintoma típico de murcha-bacteriana
Figura 14Planta de batata com sintoma típico de murcha-bacteriana.
Foto: Carlos A. Lopes
Escurecimento vascular e presença de bactéria em tubérculo de batata com murcha-bacteriana
Figura 15Escurecimento vascular e presença de bactéria em tubérculo de batata com murcha-bacteriana.
Foto: Carlos A. Lopes
Teste do copo usado para diagnóstico de murcha-bacteriana
Figura 16Teste do copo usado para diagnóstico de murcha-bacteriana.
Ralstonia solanacearum é nativa da maioria dos solos brasileiros. Embora não haja registro de cultivares com resistência total à murcha-bacteriana, observa-se que qualquer nível de resistência tem se mostrado útil dentro do contexto do controle integrado.

Podridão-mole e canela-preta (Pectobacterium spp. e Dickeya spp.) (= Erwinia spp.)
De ocorrência muito comum em lavouras conduzidas no verão, são favorecidas por temperatura e umidade altas, tornando-se mais sérias na presença de ferimentos dos tecidos. Podem provocar perdas consideráveis pelo apodrecimento da batata-semente (antes e após o plantio), das ramas (Figura 17) e dos tubérculos (Figura 18) no campo ou armazém. Representantes dos dois gêneros acima são encontrados com abundância em todos os solos brasileiros, podendo atacar diversas hospedeiras, principalmente as hortaliças que produzem órgãos suculentos, como cenoura, mandioquinha-salsa, repolho, couve-flor e tomate.
Foto: Carlos A. Lopes
Escurecimento e podridão-mole causados pela canela-preta em batata
Figura 17Escurecimento e podridão-mole causados pela canela-preta em batata.
Foto: Carlos A. Lopes
Podridão-mole em tubérculos de batata causada por espécies de pectobatérias
Figura 18Podridão-mole em tubérculos de batata causada por espécies de pectobatérias.
Embora seja difícil o seu controle por meio de resistência genética, sabe-se que as cultivares variam em relação à severidade de sintomas para ambas as doenças. Nenhuma cultivar é considerada resistente, embora a variação na suscetibilidade relativa seja percebida.

Sarna-comum, sarna-estrela, sarna-profunda ou ferruginho (Streptomyces spp.)
Mais de 10 espécies de Streptomyces podem causar a doença, o que torna difícil seu controle. Independentemente da espécie, o patógeno é muito bem adaptado ao solo, onde pode estar presente antes do plantio, mas é transmitido também pela batata-semente. A doença provoca perdas consideráveis especialmente quando em solos secos por ocasião da tuberização, e com pH acima de 6,0. Somente os tubérculos são afetados e, por isso, normalmente só é detectada na colheita, com depreciação da qualidade dos tubérculos. Dependendo da espécie e da condição do solo, os sintomas podem ser superficiais ou profundos (Figura 19).
Foto: Carlos A. Lopes
Lesões de sarna-comum em tubérculos de batata
Figura 19Lesões de sarna-comum em tubérculos de batata.
Doenças causadas por nematoides
Pipoca, nematoide ou nematoide-das-galhas (Meloidogyne spp.)
É causada por várias espécies do nematoide do gênero Meloidogyne, sendo mais comuns M. incognita e M. javanica no Brasil. Estas espécies são habitantes do solo e atacam diversas hospedeiras, o que dificulta a rotação de culturas para controle da doença. A infecção de raízes e tubérculos se dá pelo estádio juvenil 2 (J2); ao se alimentar dos tecidos, o nematoide induz hiperplasia e hipertrofia das células, formando as galhas (Figura 20). As protuberâncias nos tubérculos, também conhecidas como galhas ou pipocas, reduzem a produção, mas principalmente afetam a qualidade do produto. Provoca maiores danos sob temperatura alta do solo. O patógeno é disperso pela batata-semente infectada ou por máquinas e implementos contaminados.
Foto: Carlos A. Lopes
“Pipoca” em tubérculos de batata causada pelo nematoide das galhas
Figura 20“Pipoca” em tubérculos de batata causada pelo nematoide-das-galhas.

Nematoide-da-pinta ou nematoide-das-lesões (Pratylenchus spp.)
Várias espécies de Pratylenchus causam lesões em raízes e tubérculos, mas as mais importantes no Brasil são P. brachyurus e P. penetrans. Embora também causem danos ao sistema radicular, prejudicando a absorção de águas e nutrientes pela planta, os sintomas são mais visíveis quando os tubérculos são atacados. Os nematoides penetram no tubérculo por meio das lenticelas, que ficam escurecidas, dando ao tubérculo um aspecto de pintado (Figura 21), desvalorizando-os comercialmente.
Foto: Carlos A. Lopes
Pontuações necróticas em tubérculos de batata causadas por nematoides do gênero Pratylenchus
Figura 21Pontuações necróticas em tubérculos de batata causadas por nematoides do gênero Pratylenchus.

Nematoide-do-cisto (Globodera rostochiensis e G. pallida) e falso-nematoide-das-galhas (Nacobbus aberrans)
Estes dois gêneros de nematoides ainda não foram relatados no Brasil. São descritos aqui pelo seu alto poder destrutivo e por estarem presentes em países vizinhos, como Argentina, Chile, Peru e Equador. É importante mantê-los fora do país por meio de medidas quarentenárias na aquisição de batata-semente importada e, principalmente, evitando a importação clandestina de batata.
Doenças causadas por vírus
Enrolamento das folhas (Potato leafroll virus - PLRV)
Considerada a principal virose infectando a cultura da batata no Brasil, a doença está sendo detectada em baixa frequência nas lavouras nos últimos anos. O vírus pertence ao gênero Polerovirus, família Luteoviridae. São dois os tipos de sintomas observados nas plantas infectadas e decorrentes da infecção por PRLV. Os sintomas primários resultam da infecção da planta no campo durante o ciclo da cultura e caracterizam-se por apresentar enrolamento dos folíolos apicais, além de amarelecimento da base dos folíolos. Os sintomas secundários resultam do plantio de tubérculos infectados com o vírus e as plantas ficam com aspecto enfezado e apresentam enrolamento das folhas basais (Figura 22). Entre as várias espécies de pulgões que são capazes de transmitir o vírus, Myzus persicae é a principal. A relação vírus/vetor é do tipo persistente ou circulativa. Neste caso, o pulgão, tanto para adquirir o vírus em planta infectada como para transmiti-lo para planta sadia, necessita de algumas horas de alimentação no floema da planta. Uma vez virulífero, o pulgão pode transmitir o vírus por toda sua vida. As fontes iniciais do vírus no campo são tubérculos infectados e plantas de batata infectadas e que permanecem no campo.
Foto: Mirtes F. Lima
Planta de batata com enrolamento das folhas cuasado pelo vírus PLRV
Figura 22Planta de batata com enrolamento das folhas cuasado pelo vírus PLRV.

Mosaico (Potato virus Y - PVY)
O mosaico tornou-se a virose de maior importância econômica para a cultura da batata no Brasil, sendo atualmente considerada a principal causa da degenerescência da batata-semente (Figura 23). O PVY pertence ao gênero Potyvirus, família Potiviridae. Possui três estirpes principais: PVYo, PVYc e PVYe o subgrupo necrótico denominado PVYNTN, que causa anéis necróticos nos tubérculos (Figura 24). Dessas estirpes, apenas o PVYc ainda não foi detectada no Brasil. O vírus é transmitido por várias espécies de pulgões, sendo a principalMyzus persicae. Pode ser transportado a grandes distâncias pela batata-semente infectada e por pulgões com asas (alados); a curtas distâncias, dentro da lavoura, por pulgões com ou sem asas (ápteros). A relação vírus/vetor é do tipo não persistente ou não circulativa. Dessa forma, o pulgão tanto pode adquirir como também transmitir o vírus em poucos segundos. Portanto, apenas uma “picada de prova” é suficiente para adquirir o vírus em planta infectada ou transmiti-lo para planta sadia.
Foto: Carlos A. Lopes
Mosaico em folhas de batata causado pelo vírus Y da batata (PVY)
Figura 23Mosaico em folhas de batata causado pelo vírus Y da batata (PVY).
Foto: Carlos A. Lopes
Tubérculo de batata com anéis causados pela estirpe necrótica do PVY
Figura 24Tubérculo de batata com anéis causados pela estirpe necrótica do PVY.

Clorose (Tomato chlorotic virus – ToCV)
No Brasil, o ToCV é um patógeno emergente na batata, tendo sido detectado após a constatação de elevadas populações de mosca-branca em lavouras dessa cultura (Figura 25). O vírus tem sido detectado com frequência em tomateiro em diversas regiões do país, entretanto, embora menos frequente em batata, é uma nova ameaça à bataticultura nacional. Pertence ao gênero Crinivirus, na família Closteroviridae. A infecção da planta pelo vírus pode resultar na produção de tubérculos infectados, tornando a sua utilização como batata-semente inapropriada, considerando-se que poderão originar plantas infectadas. O vírus é transmitido pela mosca-branca (Bemisia tabaci biótipo B) de maneira semipersistente, na qual períodos mais prolongados de aquisição e de transmissão são necessários para que o inseto possa adquirir e transmitir o vírus. Após a aquisição pela mosca-branca, a capacidade de transmissão do vírus pelo inseto vetor é reduzida gradualmente. O ToCV não se multiplica no vetor.
Foto: Mirtes F. Lima
Clorose da batata causada pelo Tomato Chlorotic Virus (ToCV), transmitido pela mosca-branca
Figura 25Clorose da batata causada pelo Tomato chlorotic virus (ToCV), transmitido pela mosca-branca.

Mosaico-deformante (Tomato yellow vein streak virus - ToYVSV; Tomato severe rugose virus - ToSRV)
É uma doença emergente na cultura da batata no Brasil, ainda detectada em baixa incidência nas lavouras. Foi inicialmente relatada no Brasil na década de 1980, quando foi denominada de mosaico deformante. As espécies de geminivírus identificadas causando sintomas em batateira são Tomato yellow vein streak virus e Tomato severe rugose virus (ToSRV). Plantas infectadas com o vírus podem produzir tubérculos infectados, o que compromete sua utilização como batata-semente. Ambas as espécies pertencem ao gênero Begomovirus, na família Geminiviridae. São transmitidos pela mosca-branca Bemisia tabaci biótipo B, de maneira persistente-circulativa. Nesse tipo de relação vírus/vetor, o inseto adquire o vírus após algumas horas de alimentação em planta infectada; há um período de latência, no qual o vírus circula no corpo do vetor até atingir as glândulas salivares, quando este se torna apto a transmitir o vírus ao se alimentar em planta sadia.  

Vira-cabeça (Tomato spotted wilt virus - TSWV; Groundnut ringspot virus – GRSV; Tomato chlorotic spot virus- TSCV)
A ocorrência da doença vira-cabeça em batata no Brasil foi relatada pela primeira vez na década de 1930. Embora muito comum em tomateiro, não é frequentemente detectada em lavouras de batata. É causada por espécies de vírus classificados no gênero Tospovirus, família Bunyaviridae. Esses vírus induzem necrose nas folhas e no topo das plantas (Figura 26), sintomas que podem ser confundidos com os induzidos por fungos. A identificação da espécie do vírus só é possível por meio de testes em laboratório, sorológicos ou moleculares. Esses vírus são transmitidos por tripes, de maneira circulativa propagativa. Nesse tipo de transmissão, o vírus é adquirido pelo inseto durante a alimentação em planta infectada, circula no corpo do vetor onde se multiplica. Apenas o segundo instar larval do tripes é capaz de adquirir o vírus ao se alimentar em planta infectada e se tornar transmissor, quando adulto e, dessa forma, transmitir o vírus ao se alimentar em planta sadia. Os principais gêneros de tripes considerados importantes na agricultura são Frankliniella e Thrips. A ocorrência do Trips palmi na cultura da batata foi relatada no início da década de 90.
Foto: Mirtes F. Lima
Necrose no topo de planta de batata causada pelo vírus do vira-cabeça (Tospovírus)
Figura 26Necrose no topo de planta de batata causada pelo vírus do vira-cabeça (Tospovírus).
Medidas para o controle integrado de doenças
Para melhor controle das doenças e pragas da batata, o sistema mais adequado, tanto do ponto de vista econômico como ambiental, é o controle integrado, que procura preservar o meio ambiente. Nele, procura-se reduzir a necessidade do uso de agrotóxicos, sem negligenciar, entretanto, o seu valor em caso de as condições de cultivo serem muito favoráveis às doenças. Quando necessários, esses agrotóxicos devem ser usados com os cuidados essenciais à preservação da saúde do aplicador e do consumidor, bem como do meio ambiente, além de não onerar os custos de produção. Para a produção de batata orgânica, as medidas alternativas ao controle químico devem ser reforçadas, com ênfase no controle cultural preventivo, como a seguir:
  • plantar batata-semente certificada, que é uma garantia de estar menos contaminada com patógenos;
  • não plantar batata mais do que duas safras seguidas na mesma área. Fazer rotação preferencialmente com cereais (arroz, milho, sorgo), cana-de-açúcar ou pastagens;
  • evitar plantar batata em área onde foram cultivadas outras espécies de plantas da família Solanaceae, como pimentão, berinjela, tomate e jiló, considerando-se que essas espécies podem ser afetadas pelas mesmas doenças;
  • sempre que surgirem as primeiras plantas com sintomas de viroses ou de doenças causadas por patógenos de solo, arrancá-las, juntamente com as plantas situadas próximo às plantas eliminadas, e enterrá-las ou queimá-las fora da área de plantio. Em caso de campo de batata-semente, respeitar os níveis de tolerância pré-estabelecidos;
  • eliminar sistematicamente as plantas voluntárias (soqueira, resteva,) e as plantas daninhas, eventuais hospedeiras de patógenos e de vetores, no campo e em torno da área plantada. Alguns vírus podem infectar diversas plantas daninhas em campo atuando como fonte primária de inóculo;
  • preparar o solo com antecedência de modo a expor os patógenos, principalmente os nematoides, ao dessecamento;
  • evitar o movimento de máquinas, implementos e pessoas de áreas contaminadas para novas áreas de plantio;
  • plantar em solos bem drenados, que não acumulem água em excesso, pois solos encharcados favorecem muitas doenças, como a murcha-bacteriana, a sarna-pulverulenta e as podridões de tubérculos;
  • não aplicar excesso de calcário, considerando-se que pH acima de 6,0 favorece a ocorrência da sarna-comum;
  • adubar corretamente. Falta ou excesso de nutrientes favorece o desenvolvimento de doenças tanto de origem biótica como abiótica;
  • quando disponível, plantar cultivar resistente/tolerante às doenças mais prevalentes na região;
  • utilizar espaçamento correto para cada cultivar; plantios pouco arejados favorecem o surgimento e o aumento da severidade de doenças foliares, como a requeima;
  • em lavouras irrigadas, usar água de boa qualidade e evitar excesso ou falta de água. Colocar em prática os conhecimentos de “quando”, “como” e “quanto” irrigar;
  • pulverizar a lavoura, preventivamente, com produtos registrados para a cultura e recomendados para determinada doença ou inseto vetor;
  • monitorar a população de insetos vetores de vírus e pulverizar a lavoura de acordo com as recomendações do fabricante, somente quando necessário;
  • visitar frequentemente a lavoura e observar quaisquer irregularidades que possam favorecer as doenças, como vazamentos de canos de irrigação, ocorrência de plantas daninhas, presença de insetos, chuvas de granizo, etc.;
  • fazer eficiente controle de plantas daninhas dentro e próximo da área cultivada, principalmente das solanáceas, que podem hospedar patógenos e abrigar insetos que transmitem vírus;
  • realizar a colheita e o transporte dos tubérculos com cuidado, de modo a não causar ferimentos que sirvam de portas de entrada a patógenos causadores de podridões;
  • quando houver necessidade de lavação, deixar que os tubérculos sequem bem antes de embalar ou transportar;
  • a erradicação de plantas com sintomas de doenças, normalmente, só se justifica em campos de produção de batata-semente;
  • a aplicação de inseticidas para o controle do vetor visando a redução na disseminação de viroses não se justifica para o PVY, devido ao modo de transmissão não persistente do vírus pelo inseto. Nesse caso, a transmissão do PVY pelo pulgão pode já ter ocorrido antes que o inseticida atue sobre o inseto. Entretanto, para os vírus com relação vírus/vetor do tipo persistente circulativa (PLRV, geminivírus), semi-persistente (crinivírus) ou circulativa-propagativa (tospovírus), o controle químico pode ser utilizado desde que haja baixa incidência de vírus no campo;
  • aplicações de agrotóxicos em doses acima do recomendado pelo fabricante, além de não aumentarem a eficácia do controle, podem aumentar os custos de produção e causar contaminação do aplicador e do meio ambiente;
  • em áreas onde coexistem produtores de batata, é importante que todos os vizinhos adotem as medidas de controle para evitar a disseminação de patógenos entre lavouras.

FONTE: EMBRAPA HORTICULTURA